Moro controla narrativa para manter aura de herói e transforma Bolsonaro em algoz

24 de Abril de 2020
O anúncio da demissão de Sérgio Moro do Ministério da Justiça e Segurança nesta sexta-feira (24) pareceu milimetricamente planejada, mesmo que tenha sido gestada em menos de 24h. O ex-juiz construiu uma narrativa para manter a aura de herói, adquirida na época em que esteve à frente da 13ª Vara Federal em Curitiba, responsável pelos processos mais emblemáticos da Operação Lava Jato.   Moro caiu atirando, inclusive citando os antecessores de Jair Bolsonaro como mais responsáveis pela máquina pública do que o atual presidente. Sim, vivemos para ouvir o ex-juiz elogiar os governos de Dilma Rousseff e Michel Temer. Esse é um dos pontos destacáveis do pronunciamento, inclusive porque coloca Bolsonaro em um lugar de fala muito pior do que o petismo, já que o atual ocupante do Palácio do Planalto não combate a corrupção como esperava o séquito de lavajatistas que embarcaram no governo.   Como escrevi antes, Bolsonaro apostou alto. A saída de Moro da Esplanada dos Ministérios vai acelerar o processo de desgaste do governo, já muito avançado frente à inatividade no enfrentamento à pandemia do novo coronavírus. A questão da interferência política no Polícia Federal, repetida reiteradamente por Moro, caminha para ser a cereja do bolo para o ocaso de Bolsonaro.   O agora ex-ministro fez um discurso contundente. Acusou Bolsonaro de crimes e de tentativas de coação para interferir em investigações em andamento. Deu munição necessária à oposição para rascunhar a inviabilidade política do ex-chefe e até mesmo de um processo de impeachment - algo que até então apenas circulava como um fantasma. A assombração de Bolsonaro, que o levou a procurar figuras como Valdemar Costa Neto (PL) e Roberto Jefferson (PTB), se confirmou. Ou ele parte para a velha política ou vai cair ainda mais rápido.   Além disso, o herói da Lava Jato conseguiu controlar a narrativa em torno de si. Pelo discurso, não se deixou contaminar com a possibilidade de se tornar aquilo que sempre combateu, um falido moral. Mesmo que não tenha utilizado essa expressão, Moro tentou pintar Bolsonaro com certo grau de dissimulação que não se dá ao trabalho de esconder as motivações para tomar atitudes imorais. Pela história prévia, tem grandes chances de impor essa visão.   Bolsonaro saiu menor desse embate. Muito menor. A queda de Luiz Henrique Mandetta já tinha reduzido a imagem de Bolsonaro na presidência da República. A de Moro pode até reduzi-lo a certo grau de insignificância, talvez da qual ele nunca deveria ter saído.
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