16 de Abril de 2021

Fala de secretário sobre gestantes e variantes do coronavírus não encontra respaldo científico

Fala de secretário sobre gestantes e variantes do coronavírus não encontra respaldo científico

A ausência de conhecimento sobre uma maior gravidade ou letalidade da Covid-19 confirmados com as novas variantes do vírus, principalmente em grávidas, e a ausência de sequenciamento genético de todos os casos infectados não permitem confirmar a fala feita pelo secretário de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, Raphael Câmara, nesta sexta-feira (16).
 
Câmara disse que a "nova variante tem ação mais agressiva nas grávidas", mas sem apresentar dados. Por conta disso, a pasta recomendou a postergação da gravidez nesse período crítico da pandemia, segundo a Folha de São Paulo. 
 
No Brasil, desde o dia 1? de janeiro até o último dia 12 de abril de 2021, foram confirmados 4.348 casos de Srag (Síndrome Respiratória Aguda Grave) em gestantes e 278 óbitos, segundo dados do painel do Conass (Conselho Nacional de Secretárias de Saúde).
 
Considerando que as variantes do coronavírus surgiram em meados de novembro ou dezembro de 2020 e tiveram sua circulação bem estabelecida a partir de janeiro, é razoável pensar que os dados registrados nas 14 semanas epidemiológicas de 2021 provavelmente incluem os casos de infecções com as novas variantes.
 
No entanto, não é possível afirmar se a presença delas levou ao aumento de casos e óbitos por Srag nesse grupo. Estudo publicado na última quarta-feira (14) com dados obtidos pela Folha mostrou que houve um aumento no número de mortes maternas por Covid-19 nos três primeiros meses de 2021 em relação à média semanal do ano passado. Os dados apontam, no entanto, que o alto número de óbitos por Covid está associado, principalmente, com a desassistência materna.
 
Já foi constatada uma mudança no perfil de internados por Covid-19 no país neste ano em relação ao ano passado, com a maior ocupação de UTIs por pacientes mais jovens, mas é difícil atribuir a mudança de perfil às variantes em circulação, embora muitos relatos de médicos e especialistas apontem para um possível período de infecção mais longo.
 
Além disso, embora haja um progresso constante para melhorar o sequenciamento genético no Brasil, cerca de 0,03% das amostras do vírus são sequenciadas.
 
Nesse sentido, a maior presença das gestantes e puérperas em hospitais com síndrome respiratória, confirmada por Covid ou não, pode estar associada a uma maior incidência geral da doença na população como um todo nesta segunda onda.
 
Um artigo publicado em fevereiro na revista Jama (Journal of the American Medical Association) cita estudo realizado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, o CDC, no qual foram avaliadas mais de 450 mil mulheres em idade reprodutiva com Covid-19 sintomática. O maior risco de hospitalização e morte por Covid em gestantes foi confirmado.
 
A pesquisa não fala sobre risco maior das variantes, mas faz um alerta para o fato de que o atraso na vacinação, em um contexto de surgimento de novas cepas, pode ser possivelmente perigoso para as mulheres grávidas. Embora o conhecimento científico sobre a Covid-19 seja produzido a cada minuto, não há nenhuma evidência já estabelecida de maior letalidade das novas variantes.
 
Até o momento, foram reportadas seis variantes de preocupação do Sars-CoV-2 (ou VOCs, em inglês). São elas a B.1.1.7 (identificada no Reino Unido), B.1.351 (da África do Sul), P.1 (a brasileira, ou de Manaus), outra brasileira, P.2 (origem no Rio de Janeiro) e duas nos Estados Unidos, a B.1.526 (Nova York) e a CAL.20C (com origem no sul da Califórnia).


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