Em livro, sobrinha descreve Trump imerso em traumas familiares e mentiras

07 de Julho de 2020
Em livro, sobrinha descreve Trump imerso em traumas familiares e mentiras
Se o livro de memórias do ex-assessor de Segurança Nacional John Bolton relevou as entranhas da política externa dos EUA sob Donald Trump, um novo relato descreve a família do presidente em detalhes sórdidos.
"Too Much and Never Enough: How My Family Created the World's Most Dangerous Man" (demais e nunca o bastante: como minha família criou o homem mais perigoso do mundo), escrito por Mary Trump, 55, sobrinha do líder americano, é baseado nas memórias da autora, que passou boa parte da infância na imponente casa onde o presidente cresceu, no bairro do Queens, em Nova York.
Cópias antecipadas do livro, à venda a partir do dia 14, foram obtidas nesta terça (7) por diversos veículos da mídia americana. O livro traz também depoimentos de parentes e documentos, como declarações de renda.
O New York Times, aliás, revelou recentemente que Mary foi a fonte anônima para uma explosiva reportagem investigativa de 2018 sobre como a família Trump burlou o Leão americano para aumentar a própria fortuna com estratagemas que beiravam fraude fiscal.
Um irmão do presidente, Robert Trump, tentou impedir a publicação do livro, alegando que Mary assinou um acordo de confidencialidade para acertar a litigiosa partilha de bens feita após a morte do patriarca Fred Trump, em 1999.
Dois tribunais deram ganho de causa à editora da obra, Simon e Schuster, separando o trato feito pela sobrinha de Trump do direito de publicação. Não está claro se ela vai desafiar o pacto e falar em público sobre suas memórias.
Nas histórias contadas no livro, Mary descreve uma pessoa forjada em traumas familiares e mentiras.
Afirma, por exemplo, que o presidente pagou uma pessoa para fazer, no lugar dele, o exame pré-universitário SAT, uma espécie de Enem, cujo resultado é decisivo para ingressar em cursos de elite. Trump cursou uma das mais importantes escolas de negócios do país, a Wharton, na Universidade da Pensilvânia.
Mary aponta um colega do tio, Joe Shapiro, com fama de inteligente e de se sair bem em provas, como a pessoa que se passou por Trump.
O convite da formatura da Wharton, em 1968, ano de graduação do presidente, lista um certo Joseph Byron Shapiro que, em 1980, foi citado pela revista New York lembrando como seu colega Donald não se interessava pelos estudos, apenas por mudar o perfil do skyline de Nova York. Leia-se Manhattan.
Mesmo uma vida afluente no Queens, do outro lado do rio, não dava status ao ambicioso milionário.
A sobrinha também culpa o republicano pela morte do pai, Fred Trump 2º, um piloto de avião comercial que não queria trabalhar na empresa imobiliária fundada pela família.
Na noite em que Fred Trump 2º morreu, de alcoolismo, em 1981, ele foi mandado para o hospital sozinho, e o irmão não o acompanhou. Foi ao cinema, escreve a autora.
Anos mais tarde, Mary e o irmão Fred Trump 3º contestaram o testamento alterado quando o patriarca da família já sofria de mal de Alzheimer. Uma semana depois de desafiar o documento, Fred 3º recebeu uma notificação formal sobre a interrupção do seguro de saúde do filho que nasceu com paralisia cerebral.
Trump foi o autor do movimento, e ele mesmo admitiu a decisão numa entrevista a um tabloide nova-iorquino há quase 20 anos.
Até a irmã do presidente, Maryanne Trump Barry, uma juíza federal aposentada que nunca rompeu em público com Trump, é citada no livro. "Ele é um palhaço, nunca vai acontecer", teria dito num almoço com a sobrinha Mary sobre a candidatura à Presidência dos EUA.
Ela também teria ficado perplexa com o apoio dos evangélicos brancos ao republicano, lembrando que Trump só colocava os pés numa igreja se houvesse câmeras. "Ele não tem princípios. Nenhum!"
Num trecho do livro, reproduzido na contracapa, Mary afirma que o tio é "incapaz de crescer, aprender ou evoluir, incapaz de moderar suas emoções e reações" ou de receber e sintetizar informação.
Psicóloga, a autora diz acreditar que o Trump tem todas as características de distúrbio de personalidade narcisista. Defende ainda que há outras complexidades exibidas no comportamento dele, mas que seriam necessários testes neurológicos para um diagnóstico mais completo.
Ela recorda que a mãe do republicano adoeceu quando ele tinha dois anos e meio, o que deixou o terceiro de quatro irmãos abandonado a um pai frio e cruel, que passava seis dias por semana no escritório. Por isso, descreve Mary, Trump tinha medo do pai e foi marcado emocionalmente para o resto da vida pela maneira como foi criado.
Mary ainda diz que, quando criança, o então futuro presidente era um mentiroso compulsivo e exibia prazer sádico em atormentar o caçula da família, Robert, que considerava um fraco. Escondia os brinquedos do irmão e ameaçava destruí-los se não parasse de chorar.
No fim, quando se leva tudo em conta, a autora escreve, "Donald não é o problema". Foram os que permitiram seu comportamento, o pai, a mídia de celebridades e os republicanos, que o absolveram no processo de impeachment.
A procissão de dispostos a lavar a roupa suja dos Trumps não para. Após o explosivo livro de John Bolton e, agora, o de Mary Trump, o próximo título é "Melanie and Me" (Melania e eu), da ex-grande amiga e assistente da primeira-dama americana.
A autora, Stephanie Winston Wolkoff, que foi próxima de Melania nos círculos sociais de Nova York, rompeu com ela ao ser despedida, em janeiro de 2018, do posto de assessora sênior da primeira-dama, um cargo sem salário.
O motivo oficial foi a revelação de que a empresa de Wolkoff havia recebido US$ 26 milhões (R$ 140 milhões) para organizar eventos em torno da posse de Trump, em janeiro de 2017.
Wolkoff só admite ter recebido US$ 500 mil (R$ 2,7 milhões) pelo trabalho, e o resto teria sido pago por serviços em diversos outros eventos.
Em janeiro deste ano, o procurador de Washington moveu ação contra o Comitê de Posse e as Organizações Trump, alegando que a família usou os eventos públicos para enriquecer.
Wolkoff já havia cooperado com outra investigação sobre as finanças da cerimônia, iniciada pela promotoria de Manhattan.
Comenta-se em Washington que Melania, feroz guardiã de sua privacidade e criativa memorialista de seu passado colorido, está irritada com o livro de Wolkoff, a ser lançado em 1º de setembro.
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