China: Oposição vive dilema sobre seguir ou não com manifestações

Postado dia 02 de Dezembro de 2019
China: Oposição vive dilema sobre seguir ou não com manifestações
Um dos principais efeitos da vitória da oposição nas eleições locais de Hong Kong, no domingo (24), foi trazer relativa tranquilidade às ruas do centro financeiro asiático após seis meses de protestos contínuos. Não mais, aparentemente. Neste domingo (1º), dezenas de milhares de pessoas tomaram as ruas do movimentado distrito comercial de Tsim Sha Tsui. Houve confronto pontual com a tropa de choque. Antes de a marcha começar, o ativista Joshua Wong falou em um microfone improvisado que agora "é a hora de mantermos a luta". A paz que imperou na semana passada em Hong Kong, com exceção de uma confusão ao final de um comício na quinta (28) e escaramuças na hora do almoço em alguns pontos, tornou-se um dilema para a oposição. Sair da rua seria abdicar do momento positivo alcançado no pleito em que abocanhou 17 de 18 conselhos locais da cidade, que vive sob um sistema capitalista liberal mesmo sendo regida pela China comunista --o acerto dura oficialmente até 2047. "Acho que temos de resistir", afirmou Theresa, jovem que acompanha Wong em todos os seus eventos, mas oficialmente é apenas uma simpatizante da causa. A massa andou por dois quilômetros, até a dispersão no Coliseu de Hong Kong. Ao longo do trajeto, pequenos grupos tentavam sair da rota combinada ou atiravam pedras, e era atacados com spray de pimenta e, em ao menos duas vezes, gás lacrimogêneo. Houve algumas prisões relatadas. Mas foram altercações isoladas, apesar do clima de tensão constante, com gritos e provocações de lado a lado. Os manifestantes mantinham a mão espalmada, símbolo das suas cinco demandas: o arquivamento de uma lei que facilita a extradição para a China comunista (o que já ocorreu), inquéritos sobre violência policial, anistia aos quase 6.000 presos, fim do enquadramento como baderneiros e eleições universais para Executivo e Legislativo. O parcial comedimento policial decorre do fato de que o governo local ainda não absorveu o sentido da vitória da oposição, a julgar pelas manifestações opacas da executiva-chefe, Carrie Lam. Apertar a repressão, o que melhor ela sabe fazer, pode tirar tudo do controle novamente -a semana anterior ao pleito havia sido a mais violenta deste ano. Na dispersão, ao final da avenida Salisbury, a polícia de choque forçou manifestantes para dentro de um shopping. A Folha foi empurrada na base de golpes de cassetetes e ameaças de uso de spray de pimenta com outros repórteres, participantes do protesto e até dois funcionários da Cruz Vermelha dando apoio local. Era pouco mais de 18h. Alguns dos integrantes do protesto aproveitaram para fazer um lanche na praça da alimentação, enquanto famílias inteiras observavam algo entediadas o movimento. Perto dali, um último grupo de cerca de cem ativistas foi encurralado por policiais, prometendo levar a disputa noite adentro. Acabaram dispersados e vandalizaram duas lojas de redes que são vistas como próximas de Pequim: a Yoshinoya (conveniência) e a Best Mart 360 (lanches rápidos). O próximo grande teste será no domingo que vem, quando já está marcado um grande ato na cidade.
|