Aumento de morte cardíaca fora dos hospitais preocupa médicos

15 de Maio de 2020
Aumento de morte cardíaca fora dos hospitais preocupa médicos
A pandemia do novo coronavírus tem deixado um rastro de mortes cardiovasculares fora dos hospitais e levado pesquisadores de vários países, inclusive o Brasil, a investigar as razões.   São quadros agudos, relacionados ou não à doença, em que não houve tempo para o socorro; em outras situações, o socorro demorou para chegar.   Há também casos em que em que a pessoa, mesmo com sintomas, retardou a ida ao hospital com medo do contágio pelo coronavírus. Em São Paulo, hospitais registram queda de até 70% em atendimentos cardiológicos desde o início da pandemia.   Resultados preliminares de um estudo feito no norte da Itália, entre 20 de fevereiro e 31 de março, mostra um aumento de 58% no número de paradas cardíacas fora do hospital, em relação ao mesmo período do ano passado --229 contra 362 casos, sendo que desses, 103 tinham suspeita ou confirmação de Covid-19.   Embora seja impossível diferenciar entre as mortes causadas por complicações da infecção e aquelas resultantes de causas indiretas, como a evasão hospitalar, os autores estimam que a Covid-19 represente 77,4% do aumento nos casos de doenças cardíacas extra-hospitalares.   Diversos estudos têm demonstrado que a Covid-19 pode causar danos ao coração, levando a complicações como infartos, miocardites, insuficiência cardíaca, isquemia e tromboses.   A alta foi mais acentuada em duas províncias que primeiro registraram casos da doença e que tiveram o maior número de casos por 100 mil pessoas.   Na província de Lodi, o aumento foi de 187% e em Cremona, de 143%. Em Pavia e Mantova, onde a epidemia chegou um pouco mais tarde e menos pessoas per capita foram infectadas, os aumentos na parada cardíaca foram de 24% e 18%, respectivamente.   Os dados foram publicados como carta no renomado periódico científico The New England Journal of Medicine. São os primeiros a fornecer números de paradas cardíacas em uma região fortemente atingida pela Covid-19.   Segundo a médica Simone Savastano, uma das autoras, a decisão de publicar os dados como carta foi com o propósito de divulgar as informações rapidamente para que sirvam de alerta aos países que estão enfrentando a pandemia.   "Os sintomas cardíacos e o risco de parada cardíaca em pacientes com Covid-19 precisam estar no radar de médicos e sistemas hospitalares que agora enfrentam essa pandemia em outras partes do mundo."   Ela reforça a necessidade de enfatizar que os conselhos para ficar em casa não se estendem a pacientes com sintomas de rápida evolução, como infartos e AVCs.   O estudo baseia-se em dados do Registro de Parada Cardíaca da Lombardia, lançado em 2015, em relatórios diários de novos casos Covid-19 e no banco de dados eletrônico do sistema médico de emergência que rastreia sintomas e mortes cardíacas.   Para Savastano, o sistema de saúde italiano, pela sobrecarga imposta pela epidemia, orientou os pacientes a ficarem em casa e não deu a devida atenção aos sintomas cardiorrespiratórios.   "Lamentavelmente, agora sabemos que a progressão do desconforto respiratório é muito, muito rápida, por isso é muito difícil decidir quais pacientes podem ser deixados em casa e quais precisam ser levados ao hospital."   O cardiologista Marcelo Queiroga, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, diz que o país vive situação parecida com a da Itália, com mortes cardíacas ocorrendo em casa, mas que ainda faltam dados para comprovar isso.   Para tentar obtê-los, a SBC está buscando o número de óbitos em casa relacionados a doenças cardiovasculares registrados nos cartórios, já que os oficiais, publicados pelo Ministério da Saúde, devem demorar de um ano a dois anos.   Segundo o cardiologista Sergio Timerman, do InCor (Instituto do Coração), neste momento as mortes cardiovasculares ocorridas fora do hospital podem ou não estar associadas ao coronavírus.   "É o paciente que pode ter o vírus e ter uma evolução rápida levando à parada cardíaca, mas também é aquele que deixou de ir para o hospital mesmo tendo sinais, como dor no peito, com medo do vírus", diz o médico, que ainda se recupera da infecção pelo coronavírus.   Timerman afirma que ele e outros colegas têm percebido que os pacientes estão se cuidando menos na quarentena. "Tenho paciente que toma medicação de uso contínuo. O remédio acabou durante a quarentena e que ele simplesmente parou de tomá-lo. Gente, o que mudou para a pessoa achar que não precisa mais tomar o remédio?", questiona.   Para ele, as pessoas estão se preocupando muito com o coronavírus e se esquecendo de condições como hipertensão, da diabetes e infarto prévio.   Várias entidades médicas têm feito alertas sobre a importância dos pacientes prestarem atenção aos sinais da doenças cardiovasculares.   A Rede Brasil AVC e a Associação Brasil AVC, por exemplo, lançaram a campanha #AVCNãoFiqueemCasa como forma de alertar as pessoas a não ignorarem os sintomas do derrame cerebral.   Assim como infartos e paradas cardíacas, dados internacionais também apontam para uma queda de até 60% dos atendimentos de AVC nos hospitais após o isolamento.   Artigo recente da revista Circulation, uma das referências na cardiologia, chama atenção para essa demora do paciente em buscar ajuda cardiológica.   "O tempo entre dor no peito ou outros sintomas de ataque cardíaco até o primeiro contato médico representa a maior janela de oportunidade para a eficácia do tratamento", escreveu a médica Alice Jacobs, da Universidade de Boston, uma dos autoras do artigo.   Dados preliminares confirmam que as chamadas de pacientes para o 911, telefone de emergência nos EUA, diminuíram cerca de um terço de 1º de janeiro a 12 de abril deste ano. Em relação às chamadas por sintomas de dor no peito, a redução foi de 20%.   A conclusão dos autores é que as emergências cardíacas continuarão a ocorrer, e todos os profissionais de saúde devem se esforçar para manter a eficiência e a qualidade desse cuidado mesmo nesse período de restrições.   A pandemia também levou a uma revisão dos protocolos de atendimento da parada cardiorrespiratória por leigos, fora dos hospitais.   Timerman explica que a massagem cardíaca, feita como tentativa para que o coração volte a bater, continua recomendada, mas foram acrescidas medidas de proteção para evitar o contágio.   Uma pessoa que presenciar alguém tendo uma parada cardíaca deve ligar imediatamente para o 192, mas manter-se afastada da vítima (antes, a orientação era chegar bem perto para verificar a respiração).   Agora, o conselho é chamar a pessoa a um metro de distância. Se ela não responder aos chamados e se não estiver usando máscara facial, a pessoa que está socorrendo deve jogar um pano de modo a cobrir a boca da vítima e iniciar as compressões no tórax com o objetivo de ressuscitá-la.
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